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PONTOS DE VISTA

26 . OUTUBRO . 2008

AGONIA NO FUTEBOL DE SETÚBAL

NOTICIA
Vivem-se tempos difíceis no futebol filiado na Associação de Futebol de Setúbal (AFS). Nos últimos anos, vários clubes fecharam as portas ao escalão sénior e na actualidade outros emblemas da região equacionam a suspensão da sua actividade desportiva. A culpa, dizem os dirigentes, deve-se, entre outros factores, à crise, à falta de apoios, às dívidas, aos erros do passado quando os clubes viviam acima das respectivas possibilidades e aos custos elevados com inscrições e policiamento. Só neste ano dois emblemas históricos fecharam as portas ao escalão principal: Quintajense e Alcacerense. Os directores dizem ser essa 'a única forma de manter a sustentabilidade da colectividade e não comprometer a continuidade do futebol de formação e das outras modalidades'. Menos de quatro meses depois de a suspensão ser decidida na Quinta do Anjo (Palmela), Francisco Xavier, presidente da comissão de gestão, afirma ao Correio Sport que foi tomada a melhor decisão: 'Agora as contas estão equilibradas e os problemas financeiros desapareceram. Reduzimos em 80% os custos e temos perto de 200 atletas a praticar desporto. Apenas menos 23 do que havia antes.'

SANDES E 'SUMOL' - O dirigente quintajense, que não põe de parte a possibilidade de voltar a activar o escalão sénior, vê apenas dois caminhos para o futebol amador ser viável. 'Os jogadores destas divisões têm de praticar futebol na base da sandes e do ‘sumol’. Pagar ordenados é insustentável, talvez apenas uma ajuda para as despesas de transporte', sugere, não se coibindo de apontar o dedo à Associação de Futebol de Setúbal. 'Só as inscrições e as taxas que pagávamos à Associação eram dez a 12 mil euros por ano, isto sem contar com os policiamentos. É um perfeito disparate, e acredito que qualquer dia não haja equipas nas provas.' Xavier expressa tristeza pelo desinteresse do tecido empresarial da região, e dá um exemplo concreto. 'No ano passado fizemos a campanha ‘Amigo do Quintajense’. Enviámos 130 cartas para empresas da freguesia a solicitar um apoio de 25 euros mensais para o futebol. Houve apenas 12 adesões, das quais somente oito resistiram até ao final da época', lamenta.

SUSPENSÃO INÉDITA - Em Alcácer do Sal, pela primeira vez desde 1979, ano da fundação do Alcacerense, o clube não terá uma equipa de futebol sénior em competição. Apesar de a decisão de suspender a prática naquele escalão ter sido tomada pela direcção anterior, liderada por Nuno Martins, o actual presidente, Carlos Amaral, eleito há cerca de um mês, concorda com a medida: 'Era insustentável manter o futebol sénior com encargos tão elevados, por a maioria dos atletas ser de fora do concelho.' O dirigente explica que tem como objectivo voltar a ter escalão sénior. 'Dentro de uma ou duas épocas, contamos voltar a ter seniores, com 75 a 80% do plantel constituído por atletas do concelho', revela, frisando que 'o clube presta um serviço público a cerca de 600 pessoas, 150 das quais no futebol'. Com a suspensão do Alcacerense, o concelho, segundo maior do País – com uma área superior à de toda a península de Setúbal (formada por nove concelhos), fica agora desprovido de representantes no futebol sénior da Associação.

COMÉRCIO E INDÚSTRIA - Quase todos os clubes do distrito (sobre)vivem com tremendas dificuldades. O Comércio e Indústria, da 1ª Distrital, é um dos exemplos mais recentes. No Campo da Bela Vista, Setúbal, os problemas são muitos. O Comércio e Indústria, com 91 anos, viu a água ser-lhe cortada. Na origem da situação está a dívida do clube, de 62 mil euros, à Águas do Sado, que remonta a 1999. 'Tentámos negociar com a empresa mas houve uma posição de prepotência. Sempre procurámos pagar esta dívida antiga mas não conseguimos fazê-lo de uma vez só', garante o presidente dos sadinos, Vasco Gonelha. A solução encontrada passa por fazer um furo de captação de água. Entretanto, os Pescadores da Costa de Caparica, que estiveram em risco de cessar a actividade desportiva, solveram nesta semana muitas das dívidas pendentes. Em comunicado, o clube confirmou a regularização da situação fiscal, fruto do encaixe financeiro na ordem dos 360 mil euros antecipados pela CostaPolis, no âmbito do acordo de expropriação dos terrenos do campo de futebol.  O clube, que milita na 3ª Divisão, pagou também os subsídios atrasados, prémios referentes à subida de divisão, e mais quatro meses de vencimentos, dois da última época, ficaram saldados. Quanto às Finanças, o presidente, Pedro Baptista, pagou 142 mil euros na 3ª Repartição de Almada. Montante que concluiu um pagamento global de 332 mil euros entregues ao Fisco.

 VÁRIOS EMBLEMAS À DERIVA - Barreirense e CUF (actual Fabril), distintivos que têm 24 e 23 presenças no escalão principal do futebol nacional, respectivamente, militam na 3.ª Divisão. Os ‘alvi-rubros’, no antepenúltimo lugar, já não têm o Estádio D. Manuel de Mello. A venda do recinto para equilibrar as contas e montar um novo complexo obriga o clube a fazer 13 km até Sarilhos Pequenos, Moita, para actuar e poupar nas despesas. á o Amora, que marcou presença na 1.ª Divisão nas três primeiras épocas da década de 80, foi relegado em Maio à 1.ª Divisão Distrital. Pior está o vizinho Seixal – de 63 a 65 esteve na 1.ª Divisão –, que suspendeu em 2007 o futebol sénior devido a dívidas, penhoras e impedimento de inscrição de atletas. O exemplo extremo foi dado a 12 de Julho de 2007, dia em que 30 sócios do CD Montijo votaram a dissolução do emblema, com quase 60 anos. Salários em atraso e dívidas ao Fisco levaram ao fechar de portas de um clube que em 1972/73, 1973/74 e 1976/77 esteve entre os grandes do futebol. Para evitar um vazio na cidade, antigos elementos da extinta agremiação fundaram uma nova – Clube Olímpico Montijo –, que foi no corrente ano promovido à 1.ª Divisão da AF Setúbal.

ASS. DE FUTEBOL DE SETÚBAL PREOCUPADA COM SITUAÇÃO - Sousa Marques, presidente da Associação de Futebol de Setúbal, vê com 'alguma preocupação' o momento actual do futebol distrital e lembra que 'os problemas já se sentem há muito tempo' não só em relação aos históricos mas nos seniores: 'Na origem está a falta de apoios e a incapacidade dos clubes para gerarem receitas próprias.' O dirigente sublinha que o que se passa com os mais velhos contrasta com o êxito na formação, deixando um dado relevante. 'Os custos mais elevados dos seniores, por vezes, contribuem para as desistências. Por exemplo, há dois anos o custo com o policiamento era pago e devolvido quase na íntegra. Hoje é devolvido muito mais tarde, e apenas 20 a 30% do que foi pago', diz Sousa Marques, acrescentando: 'Mas acredito que a crise é passageira.'

Reportagem de Ricardo L. Pereira  (Correio da Manhã)

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